A costa norte de Menorca — a tramuntana — é o rosto selvagem da ilha. Onde o sul oferece areia branca, águas turquesa e o postal de manual, o norte responde com areia avermelhada e escura, rocha antiga, pinhais retorcidos pelo vento e um mar que muda de cor e de carácter consoante o dia. Não é a Menorca fácil. É a Menorca que é preciso conquistar, e é precisamente por isso que conserva o silêncio.
Aqui a paisagem não foi maquilhada para o visitante. A terra é mais velha — geologia de milhões de anos que aflora em tons ocres e quase negros —, o vento manda e as enseadas continuam a ser o que sempre foram: refúgios no final de um caminho de terra ou de um trilho entre mato. Não espere chapéus-de-sol alinhados nem música de bar de praia. O que o norte oferece é outra coisa: espaço, tempo e a sensação, cada vez mais rara, de estar num lugar que não lhe pertence por completo.
Este é um guia com critério para percorrer as enseadas mais memoráveis da tramuntana — Pregonda, Cavalleria, Pilar, Tortuga, Binimel·là — com respeito, sem pressa e sabendo a que se vai.
O essencial
- Onde: costa norte de Menorca, entre Fornells e o extremo de Ciutadella; muitos acessos partem de Es Mercadal e do caminho da Tramuntana.
- Quando: maio, junho e setembro são os meses ideais; em agosto, só a primeira hora da manhã.
- Como: carro até um parque de estacionamento de terra batida e depois um troço a pé (de dez minutos a quase uma hora, consoante a enseada) pelo Camí de Cavalls (GR-223).
- O que levar: água abundante, calçado fechado, sombra própria, comida e um saco para o seu lixo. Quase nenhuma tem serviços.
- O vento: com tramuntana forte, o norte torna-se incómodo e o mar, bravo. Nesse dia, vá para o sul.
Porque é que a areia do norte é avermelhada e escura?
É a pergunta que toda a gente faz ao pisar Pregonda ou Cavalleria pela primeira vez. A resposta está na geologia: o norte de Menorca pertence a um substrato muito mais antigo do que o sul, com arenitos vermelhos, xistos e rocha ferruginosa que, ao erodir-se, tingem a areia de tons cobre, terracota e quase violáceos. A isto somam-se os ilhéus e formações que salpicam a costa, fruto desse mesmo relevo abrupto.
O contraste é brutal e faz parte do atrativo: na mesma ilha passa-se das enseadas pálidas e caribenhas do sul para estas praias de ar quase nórdico ou lunar, onde a areia escura, a água intensa e a rocha esculpida pelo vento compõem uma paisagem que não parece mediterrânica. É a Menorca menos fotografada nos folhetos e, para muitos, a mais autêntica.
Quando ir?
De maio a junho e em setembro a luz é perfeita, a água já aquece e a afluência é moderada. São, sem dúvida, os melhores meses para o norte: vai encontrar enseadas quase só para si e um mar de cor limpa sem as multidões do verão.
Em pleno agosto, a única hora tranquila é a primeira da manhã. Se chegar antes das dez, a enseada é sua; a partir do meio-dia, até os cantos mais remotos recebem visitas. A luz da tarde, isso sim, é magnífica para quem aguentar: o sol baixo acende a areia avermelhada e oferece alguns dos melhores pores do sol da ilha.
Uma nuance que faz a diferença: consulte sempre a previsão de vento — a nossa ferramenta de onde o mar está em calma diz-lhe todos os dias que enseadas ficam resguardadas. A tramuntana — esse vento norte que dá nome à costa — pode levantar-se de um dia para o outro. Com tramuntana forte, estas enseadas tornam-se inóspitas, a água turva-se e a areia voa. A regra local é simples: dia de norte, praia de sul; dia de calma, o norte é um presente.
Como se chega? O Camí de Cavalls
A maioria destas enseadas exige um troço a pé, e isso faz parte do trato. O acesso costuma ser um caminho de terra até um parque de estacionamento rústico e, a partir daí, um trilho — muitas vezes parte do Camí de Cavalls (GR-223), o histórico trilho de cerca de 185 km que rodeia toda a ilha. Calce bom calçado fechado, leve água de sobra e não espere bar de praia nem sombra: aqui o luxo é a ausência de tudo o resto.
- Cala Pregonda: talvez a mais célebre do norte pelos seus ilhéus e a sua areia dourada-avermelhada. Chega-se após uma caminhada de cerca de 30-40 minutos a partir do parque de estacionamento de Binimel·là. O esforço filtra a multidão e faz parte da recompensa.
- Cala Pilar: uma das mais virgens e solitárias, com um acesso mais longo e exigente através de um bosque de zambujeiros. A sua areia escura e o seu isolamento tornam-na inesquecível; vá preparado.
- Cala del Pilar e Cala Tortuga: Tortuga, junto ao imponente farol de Favàritx, fica dentro do Parque Natural de s’Albufera des Grau — o coração da Reserva da Biosfera — e alcança-se a pé a partir do parque de estacionamento do farol, por uma paisagem de xisto negro quase lunar.
- Cala Cavalleria: uma das mais acessíveis do norte, com um trajeto a pé curto a partir do seu parque de estacionamento. A sua areia avermelhada e o cabo de Cavalleria ao fundo tornam-na ideal para um primeiro contacto.
- Binimel·là: a mais fácil de todas, quase à porta do parque de estacionamento, e porta de entrada natural para Pregonda. Boa opção para quem não queira caminhar muito ou vá com crianças.
Conduza com calma pelos caminhos de terra, respeite os fechos de propriedades privadas e estacione apenas onde for permitido. O acesso à natureza é um privilégio que se conserva tratando-o bem.
Há serviços, chapéus-de-sol ou bares de praia?
Em geral, não, e convém assumi-lo antes de sair. A esmagadora maioria das enseadas do norte são virgens ou semivirgens: sem bares, sem aluguer de espreguiçadeiras, sem duches e, muitas vezes, sem caixote do lixo. Binimel·là e Cavalleria, pela sua acessibilidade, podem ter algum serviço sazonal, mas não dê nada como garantido e consulte a época atual antes de contar com isso.
Isto muda por completo o que é preciso levar. A lista mínima sensata:
- Água, muita: não há onde comprar e o norte aperta ao sol.
- Sombra própria: chapéu-de-sol leve ou toldo, porque a sombra natural escasseia.
- Comida e um bom piquenique: transforma a falta de bar de praia numa virtude.
- Calçado para caminhar e protetor solar de sobra.
- Um saco para o seu lixo. Não há serviço de limpeza; o que entra, sai consigo.
O que fazer quando chega (e o que não fazer)?
O norte convida a não fazer quase nada, e aí está o seu luxo. Banhe-se cedo, quando a água está quieta e transparente; caminhe pela margem seguindo a areia escura; procure a sombra de um pinheiro para ler nas horas centrais. O snorkel costuma ser excelente em dias de calma, sobretudo nas zonas rochosas dos extremos de cada enseada, onde a vida marinha abunda.
O que convém evitar: banhar-se com bandeira vermelha ou mar de fundo — a tramuntana gera correntes e ressaca que não se devem subestimar —, acender fogo, recolher areia ou pedras (é protegido), e deixar qualquer rasto. Está numa Reserva da Biosfera da UNESCO; muitas destas enseadas fazem parte de espaços naturais protegidos. A regra de ouro é não deixar marca.
Onde comer e fechar o dia?
Como nas enseadas não há nada, a jogada inteligente é descer com piquenique — pão, queijo Mahón-Menorca DOP, fruta, água — e reservar a gastronomia para depois. Fornells, a aldeia piscatória do nordeste, é a paragem natural no regresso: famosa pela sua tradição marinheira e a sua caldereta de lagosta, é o lugar para se sentar em frente ao porto com algo bem-feito. Convém reservar com antecedência em época alta e consultar horários atualizados, porque muitos negócios trabalham por temporadas.
Para fechar o dia, nada como um pôr do sol no cabo de Cavalleria ou junto ao farol de Favàritx, e no regresso, uma pomada — o gin da ilha, o clássico Gin Xoriguer, com limonada — para brindar ao silêncio que ainda resta.
O critério da Calma Society
Se só puder ir a uma, vá a Pregonda: o passeio, os ilhéus e essa areia entre dourada e vermelha resumem o norte inteiro. Se procura solidão a sério, aposte em Cala Pilar e no seu acesso longo, que afasta a maioria. E se for com pouco tempo ou com crianças, Binimel·là e Cavalleria dão o norte sem tanta caminhada.
Mas o verdadeiro conselho não é uma enseada, é uma atitude: deixe o carro à sombra, saia cedo, não encha o dia de planos e deixe que a tramuntana marque o ritmo. O norte não é para fotografar e ir embora; é para ficar, calar-se e deixar que o lugar faça o seu trabalho. Premeia quem madruga e quem sabe esperar.