Há aldeias de Menorca que se anunciam com monumentos e outras que se reconhecem pelo que não têm: nem alvoroço, nem postais obrigatórios, nem a pressa do litoral em agosto. Es Migjorn Gran é das segundas. Um punhado de casas no centro-sul da ilha, ruas tranquilas, campo à volta e um silêncio que hoje se tornou um luxo. Quem procura a Menorca de verdade — a que continua a cheirar a terra e não a época alta — encontra aqui um refúgio.
Convém começar por desfazer uma confusão habitual. “Es Migjorn” é, em menorquino, o nome genérico do sul da ilha; Es Migjorn Gran, com apelido, é um concelho concreto, o mais jovem de Menorca. Não são a mesma coisa, e a diferença importa: este artigo é sobre a aldeia, não sobre a região inteira. É uma aldeia que nasceu da agricultura e da pecuária, que durante séculos viveu à sombra de Es Mercadal e que só há umas décadas tomou as rédeas do seu próprio destino.
Este é um guia com calma de Es Migjorn Gran: porque merece a paragem, o que a torna diferente, o que ver à sua volta e como a viver sem relógio.
O essencial
- Onde: centro-sul de Menorca; concelho próprio desde 1989, quando se independizou de Es Mercadal.
- O mais jovem e pequeno: o último concelho a constituir-se na ilha e o de menor população, com cerca de 1 500 habitantes.
- Origem: comunidade agrícola e pecuária do século XVIII; uma aldeia de interior, tranquila, sem massificação.
- O que ver: a Cova des Coloms (“A Catedral”), uma grande gruta no Barranc de Binigaus, e o talaiot de Sant Agustí Vell.
- As suas praias: Binigaus (virgem, areia clara e água transparente) e Sant Tomàs (empreendimento turístico dos anos 60).
- Filho ilustre: o médico, escritor e folclorista Francesc Camps i Mercadal “Francesc d’Albranca” (1852-1929).
Porque parar em Es Migjorn Gran?
Porque é um oásis, e a palavra não é marketing. Enquanto boa parte do litoral menorquino enche no verão, esta aldeia de interior mantém um pulso lento durante todo o ano. Não é preciso “fazer” grande coisa: passear pelas suas ruas, tomar algo numa praça sem pressas, olhar como o campo se estende em direção aos barrancos. A recompensa é precisamente essa, a de um lugar que não representa para o visitante.
A sua escala também explica o encanto. Com cerca de mil e quinhentos habitantes — o concelho menos povoado de Menorca — percorre-se por inteiro num passeio curto, e essa pequenez é o que a mantém a salvo do ruído. É a antessala perfeita de dois mundos: em direção ao mar, praias que vão do selvagem ao familiar; para dentro, um barranco que guarda uma das grutas mais imponentes da ilha.
O concelho mais jovem de Menorca
Es Migjorn Gran tem uma história administrativa singular. Nasceu como comunidade agrícola e pecuária no século XVIII, mas durante muito tempo fez parte do concelho de Es Mercadal. Só em 1989 se independizou e se constituiu como concelho próprio, o que a torna no concelho mais jovem da ilha.
Essa juventude institucional convive com raízes profundas na terra. A aldeia conserva o carácter de quem viveu do campo e do gado, sem a marca senhorial dos grandes núcleos nem a vocação portuária do norte. É Menorca de interior, de agricultor, e nota-se no seu sossego.
A aldeia é também berço de Francesc Camps i Mercadal, conhecido como “Francesc d’Albranca” (1852-1929): médico, escritor e folclorista que dedicou a sua vida a recolher a cultura popular menorquina. Que um lugar tão pequeno tenha dado uma figura destas diz muito sobre a densidade cultural da ilha.
A Cova des Coloms, “A Catedral”
Se Es Migjorn Gran guarda um segredo maiúsculo, é a Cova des Coloms, apelidada “A Catedral” pelas suas proporções. Não é uma gruta qualquer: uma grande cavidade de cerca de 24 metros de altura, 15 de largura e 110 de comprimento, aberta no Barranc de Binigaus. Os números, frios no papel, não preparam para a sensação de entrar sob uma abóbada de pedra da altura de um edifício.
O seu passado acrescenta mistério ao espetáculo. Segundo os estudos, pode ter sido usada como espaço funerário ou ritual em época pós-talaiótica, o que a torna num lugar carregado de simbolismo para além do seu tamanho. Pisar esse interior é debruçar-se sobre uma Menorca muito anterior à dos folhetos.
Um aviso importante para a visitar bem: à Cova des Coloms chega-se caminhando pelo barranco, não se acede de carro. É preciso calçar-se bem, levar água e desfrutar do passeio como parte da experiência. Convém consultar o estado dos acessos e o tempo do percurso antes de ir, porque o barranco caminha-se com tempo e sem atalhos.
As praias: da virgem Binigaus à familiar Sant Tomàs
O concelho desce até ao mar com duas praias de carácter oposto, e é aí que está a sua graça.
Binigaus é a joia selvagem: uma praia virgem de areia clara e águas transparentes, sem empreendimento nas costas, emoldurada por falésias. É a imagem do sul de Menorca que muitos procuram e poucos sabem onde encontrar. Chegar exige algum passeio, e esse pequeno esforço é o que a mantém tranquila.
Mesmo ao lado, Sant Tomàs oferece a face oposta: um empreendimento turístico nascido nos anos sessenta, com serviços, hotéis e uma praia comprida de acesso confortável. Não é centro histórico nem canto escondido — convém sabê-lo —, mas a base familiar e prática a partir da qual se pode caminhar até ao virgem. As duas, juntas, resumem as duas almas do sul.
Se quiser ampliar o plano de costa, o nosso guia das melhores enseadas de Menorca situa-o no mapa do litoral, e a arte da calma explica porque é que este sul tranquilo merece ser visitado sem pressas.
O que mais ver por perto
Para além da gruta e das praias, o concelho guarda pegadas da Menorca pré-histórica. O talaiot de Sant Agustí Vell é um sítio arqueológico que lembra que esta terra está habitada desde muito antes da aldeia atual, somando-se ao imenso património talaiótico da ilha.
O verdadeiro plano, em todo o caso, é de baixo perfil: caminhar o barranco, deixar-se cair numa das duas praias consoante o ânimo, e voltar à aldeia na hora tranquila. Es Migjorn Gran não se percorre com lista na mão; habita-se um pouco.
Quando ir e como chegar?
Como quase todo o interior de Menorca, dá o melhor de si na primavera e no outono, quando o campo está verde, a luz é amável e o barranco se caminha sem o calor do meio-dia. No verão convém reservar as horas frescas — primeira hora e entardecer — para a rota até à gruta. Chega-se facilmente de carro desde Es Mercadal ou desde Maó e Ciutadella pelo interior, embora, como sempre em época alta, o estacionamento perto das praias se complique.
O nosso critério
Es Migjorn Gran não compete pelo postal turquesa nem pelo monumento de campanário. O seu luxo é outro: o de uma aldeia pequena que ficou à margem do ruído e que conserva, ao mesmo tempo, uma das grutas mais impressionantes de Menorca e uma praia virgem a um passeio de distância.
A nossa recomendação: comece cedo com a caminhada pelo barranco até à Cova des Coloms, deixe o meio-dia para se refrescar em Binigaus e reserve a tarde para a aldeia, sem agenda. É o luxo tranquilo entendido como deve ser — espaço, tempo e autenticidade —, no concelho mais jovem e sereno da ilha.