É o produto mais internacional de Menorca e, ao mesmo tempo, um dos pior compreendidos: compra-se durante todo o verão, mas só se pesca de facto cinco meses por ano. A lagosta vermelha —Palinurus elephas, a lagosta espinhosa do Mediterrâneo, aqui chamada llagosta— é um luxo com calendário, com norma e com truque para não se deixar enganar.
Este artigo conta o que quase ninguém explica na ementa: quando há lagosta de Menorca, como se pesca, onde vive a melhor e, sobretudo, como saber que a que lhe servem é daqui.
O essencial
- Época de captura: de 1 de abril a 31 de agosto. No resto do ano —cerca de sete meses— há defeso em águas baleares.
- Pesca-se com covo (armadilha tronco-cónica) e trasmalho; a norma proíbe calar as duas artes ao mesmo tempo e limita o tamanho do covo (máx. 90 × 60 cm).
- O melhor pesqueiro é a Reserva Marinha do Nord de Menorca: 5 119 hectares entre Fornells e cap Gros, criada em 1999, onde estão proibidos o arrasto, o cerco e o palangre.
- Rastreabilidade: cada lagosta legal marca-se com uma braçadeira de cor consoante a confraria; é a forma de comprovar que é de Menorca. (Atenção: não existe um selo registado tipo denominação de origem; a etiqueta amarela individual documentada é de Ibiza, não de Menorca.)
- Preços e capturas mudam todos os anos: em 2025, a primeira venda rondou os 70-75 €/kg, com cerca de 17 950 kg capturados (menos do que em 2024). Confirme a época em curso.
Um calendário estrito
A lagosta de Menorca só pode ser pescada de 1 de abril a 31 de agosto. Fora dessa janela, a lei protege a espécie durante a postura e o crescimento. Isto tem uma consequência prática que convém gravar: uma lagosta local e fresca em outubro não existe. O que for servido nessa altura será de viveiro, congelada ou importada —perfeitamente legal se for declarada, mas não é a mesma coisa—.
A arte tradicional é o covo, uma armadilha em forma de funil que se cala no fundo rochoso, e o trasmalho. A legislação balear cuida do equilíbrio: não se podem usar as duas artes em simultâneo e o covo tem um tamanho máximo. É uma pesca de paciência, de artes menores, o contrário da industrial.
Onde vive a melhor
O pesqueiro por excelência é a Reserva Marinha do Nord de Menorca, 5 119 hectares que vão da baía de Fornells a cap Gros. Criada em 1999, fez 25 anos em 2024, e nela estão proibidas as artes mais agressivas: o resultado é um fundo saudável que funciona como despensa e viveiro do Mediterrâneo. Também se pesca nas águas interiores do sul, entre cap d’Artrutx e a illa de l’Aire. O facto de o Consell de Menorca ter voz sobre se barcos de outras ilhas podem trabalhar aqui dá a medida do que se protege.
Como saber que é de Menorca
Aqui está a chave do artigo. A lagosta legal capturada nas Baleares marca-se com uma braçadeira ou etiqueta de cor consoante a confraria de origem e viaja com a sua documentação de rastreabilidade. É seu direito pedir essa etiqueta de garantia: se é daqui, terá resposta; se ninguém sabe de onde saiu, desconfie.
Que isto importa demonstrou-o um episódio real: em agosto de 2025, em plena época alta, o Seprona da Guarda Civil imobilizou lagosta importada de França sem rastreabilidade com destino à restauração da ilha. A etiqueta não é burocracia: é a diferença entre pagar por Menorca e pagar por um cartaz.
Do covo à caldeirada
O destino mais célebre desta lagosta é a caldeirada de Fornells, que começou por ser um guisado humilde de pescadores —sopa de pão com o que não se vendia— e acabou sendo o prato que pôs Menorca no mapa gastronómico. Dedicámos-lhe um artigo próprio: a caldeirada de lagosta de Fornells. Aqui basta lembrar que um bom prato começa muito antes da panela, num covo calado na reserva do norte.
O nosso critério
A lagosta de Menorca é cara porque é escassa, sazonal e difícil, e é exatamente essa a sua graça. Coma-a entre abril e agosto, pergunte pela etiqueta da confraria e desconfie das pechinchas: uma lagosta local não compete em preço com uma importada, compete em verdade. Esse sobrepreço não paga um capricho; paga que o mar do norte continue vivo.
Um produto com defeso e com etiqueta não se pode fingir: ou é daqui e da época, ou não é. A lagosta de Menorca é as duas coisas ou não é nada.