Há aldeias de Menorca que vivem de frente para o mar e outras que vivem de frente para o campo. Alaior é das segundas. Situada no interior do este da ilha, sobre uma colina de casas brancas que se veem ao longe, é a terceira povoação de Menorca e um daqueles lugares onde a ilha continua a trabalhar os doze meses do ano, longe do ruído da costa. Não se entende olhando o horizonte, mas entrando nas suas ruas de calçada e, sobretudo, provando o que ali se faz.

Porque Alaior tem dois ofícios que a definem e que saíram da ilha para se fazerem um nome lá fora: o queijo e o calçado. É o berço comercial do queijo Mahón-Menorca —aqui nasceram e continuam as produtoras históricas— e, ao mesmo tempo, uma aldeia de fábricas de sapatos onde a pele se cose com critério de autor. Duas tradições de mãos pacientes, de produto bom e sem pressa, que encaixam exatamente com a ideia de luxo tranquilo que defendemos.

Este é um guia com calma de Alaior: porque vale a pena parar, o que provar, o que levar e o que ver nos seus arredores, que escondem alguns dos tesouros menos turísticos de Menorca.

O essencial

  • Onde: interior-este de Menorca, sobre uma colina; terceira povoação da ilha.
  • A sua fama: o berço comercial do queijo Mahón-Menorca, com as suas queijarias históricas.
  • Denominação: DOP Queijo Mahón-Menorca, protegida desde 1985 (a zona amparada é toda a ilha; Alaior concentra as produtoras históricas).
  • Outro ofício: calçado de autor —com casas exportadoras como a Pons Quintana— e bijuteria/joalharia.
  • O que ver: o centro histórico de ruas de calçada e casas brancas, a igreja de Santa Eulàlia e a de Sant Diego com o seu claustro, o Pati de Sa Lluna.
  • Perto: a Torre d’en Galmés (o maior povoado talaiótico da ilha), Cales Coves e a zona de Cala’n Porter, tudo no seu concelho.

Porque parar em Alaior?

Porque é a Menorca que não sai nos postais e que, ainda assim, sustenta boa parte do que se come e se calça na ilha. Alaior não procura o turista: recebe-o sem se alterar. Percorre-se a pé, num passeio tranquilo, entre casas caiadas, portadas pintadas e uma malha de ruas antiga que sobe e desce a colina sem pressa.

O plano aqui não é riscar monumentos, mas entender um ofício. Parar numa queijaria, olhar para uma vitrine de sapatos cosidos à mão, comprar produto a sério e voltar à costa com algo que de facto vale a pena. É uma aldeia para quem viaja com critério, não com lista.

O queijo Mahón-Menorca: porque Alaior é a sua capital

Convém dizê-lo claro desde o início: o queijo chama-se Mahón-Menorca, nunca “queijo de Alaior”. A denominação de origem protegida ampara toda a ilha e existe oficialmente desde 1985. O que acontece é que Alaior foi historicamente o centro comercial deste queijo: aqui nasceram e continuam a funcionar as produtoras que o levaram para além de Menorca.

Dois nomes contam a história. A Coinga, a cooperativa que reúne boa parte dos criadores da ilha, e a La Payesa, uma queijaria familiar nascida em Alaior no final dos anos 40. Entre as duas resumem a história de como um queijo camponês, de cada quinta, passou a ser um produto com selo e reconhecimento. O Mahón-Menorca é de pasta prensada, de leite de vaca, e encontra-se em diferentes pontos de cura: do tenro, suave e amanteigado, ao curado, intenso e com o seu característico tom alaranjado da crosta untada com azeite e pimentão.

Se quiser levar algo de Alaior, que seja queijo. Muitas queijarias têm loja e, consoante o caso, visita; convém confirmar horários antes de ir, porque variam com a época. Para entender bem do que falamos, a sua origem e como o escolher, dedicámos um guia próprio ao queijo Mahón-Menorca.

Bloco quadrado de queijo Mahón-Menorca curado artesanal sobre uma tábua de madeira, com a crosta natural bolorenta na face superior.
O Mahón-Menorca prensa-se em quadrado, não em roda: Alaior é a capital queijeira da ilha. · Foto: Slastic / Wikimedia Commons (domínio público)

O calçado de autor, o outro ofício de mãos

A segunda alma de Alaior cose-se em pele. A aldeia tem uma longa tradição de calçado, e daqui saíram casas que exportam para meio mundo mantendo o fabrico familiar. A mais conhecida é a Pons Quintana (PQ), uma fábrica menorquina reconhecida pelo seu entrançado de pele característico e por um sapato confortável e elegante, feito com paciência de ofício. Junto ao calçado convivem ateliers de bijuteria e joalharia, outra herança artesã da aldeia.

É uma compra diferente da da lembrança de costa: produto duradouro, bem feito, com história por trás. O mesmo critério que se pede a um queijo curado pede-se a um sapato cosido à mão. Como sempre, consulte horários de fábricas e lojas, que nem sempre coincidem com os da zona turística.

O que ver no centro histórico de Alaior

O centro de Alaior desfruta-se sem pressa. As suas ruas de calçada e as suas casas brancas trepam pela colina até ao ponto mais alto, onde domina a igreja de Santa Eulàlia, dedicada à padroeira da aldeia: um templo robusto, de ar quase de fortaleza, que se vê da estrada muito antes de chegar.

A poucos passos está a igreja de Sant Diego, com um dos recantos mais bonitos e fotografados da aldeia: o Pati de Sa Lluna, um antigo claustro hoje transformado num pátio sereno, de arcos e branco, onde o tempo parece parar. É o tipo de lugar para o qual Alaior é perfeita: sem filas, sem bilhetes, só um passeio atento.

O que ver por perto: talayots, grutas e uma enseada com história

O concelho de Alaior guarda alguns dos tesouros menos massificados da ilha. A muito pouca distância espera a Torre d’en Galmés, o povoado talaiótico mais extenso de Menorca: um sítio arqueológico amplíssimo, com talayots, taula e vestígios de habitações, que permite imaginar como se vivia aqui há milhares de anos. Se lhe interessa este passado pré-histórico, contamos tudo com calma no nosso guia da Menorca talaiótica.

Perto estão também as Cales Coves, uma necrópole escavada na rocha com mais de uma centena de grutas debruçadas sobre o mar, e a zona de Cala’n Porter, na costa sul do concelho. Tudo isto pertence a Alaior, ainda que fique longe do seu centro. A ilha, como quase sempre, é mais pequena do que parece.

Quando ir e como chegar?

Alaior desfruta-se o ano inteiro, e é precisamente por isso que é interessante: é uma aldeia que não depende da época. Primavera e outono oferecem luz suave e ruas tranquilas; no verão, as primeiras horas da manhã são as mais serenas para passear pelo centro histórico antes do calor. Chega-se fácil de carro a partir de Maó, já que fica mesmo na estrada geral que atravessa a ilha, ainda que as ruas do centro sejam estreitas e íngremes para estacionar.

O nosso critério

Alaior não se “vê”, entende-se. A nossa recomendação: comece por uma queijaria para levar um bom Mahón-Menorca, suba depois ao centro histórico até Santa Eulàlia e espreite o claustro de Sant Diego, e deixe um tempo para uma vitrine de calçado de autor. Se tiver a manhã, some-lhe a Torre d’en Galmés, que pede tempo e luz baixa.

É o luxo tranquilo longe do mar: produto a sério, mãos pacientes e uma aldeia branca que continua a trabalhar como sempre. Nada para fotografar a correr; muito para levar para casa.