Há um número que muda a forma de olhar para Menorca: toda a ilha, sem exceção, é Reserva da Biosfera da UNESCO. Não um recanto, nem um parque delimitado, nem uma enseada assinalada com um cartaz. A ilha inteira —as suas aldeias, os seus campos de pedra seca, as suas enseadas e, há pouco tempo, também o mar que a rodeia— faz parte de um mesmo reconhecimento internacional concedido em 1993. Poucas regiões do mundo podem dizer o mesmo de todo o seu território.
Convém perceber bem o que essa etiqueta quer dizer, porque muitas vezes se interpreta mal. Uma Reserva da Biosfera não é um parque nacional nem uma zona onde seja proibido viver ou trabalhar. É precisamente o contrário: uma figura da UNESCO que premeia e promove o equilíbrio entre a atividade humana e a conservação da natureza. Reconhece uma paisagem que foi habitada, cultivada e cuidada durante séculos, e compromete-se a manter esse ponto médio delicado. Menorca é Reserva da Biosfera precisamente porque as pessoas vivem nela há milénios sem a destruir.
Neste guia contamos o que essa figura protege exatamente, como a ilha multiplicou por sete a sua superfície quando a reserva se ampliou ao mar, onde bate o seu núcleo natural e, sobretudo, porque este reconhecimento explica boa parte do que torna Menorca diferente. Sem pressa, como pede um lugar que fez da calma a sua forma de existir.
O essencial
- O que é: Reserva da Biosfera da UNESCO —uma figura de equilíbrio entre pessoa e natureza—, não um parque nacional.
- Desde quando: toda a ilha foi declarada Reserva da Biosfera em 1993, pelos seus valores naturais e culturais.
- A ampliação marinha: aprovada a 19 de junho de 2019, estendeu a proteção ao mar que rodeia Menorca.
- Quanto mede: passou de 71 191 ha (1993) para 514 485 ha após a ampliação, multiplicando por sete a sua superfície.
- O peso do mar: a parte marinha chega às 12 milhas mar adentro —445 005 ha, 85% do total—; é a Reserva da Biosfera com mais superfície marinha do Mediterrâneo.
- O seu coração: o Parc Natural de s’Albufera des Grau é o núcleo terrestre de máxima proteção, gerido pelo Consell Insular.
O que significa “Reserva da Biosfera” (e o que não significa)
O equívoco mais comum é confundir esta figura com um parque nacional. São coisas distintas. Um parque nacional protege um espaço concreto e restringe o que se pode fazer dentro dele. Uma Reserva da Biosfera da UNESCO abrange um território muito mais amplo —neste caso, uma ilha inteira, habitada— e persegue um objetivo mais ambicioso: demonstrar que o desenvolvimento humano e a conservação podem conviver.
Por isso Menorca pode ser, ao mesmo tempo, uma ilha com aldeias, quintas em atividade, pecuária, turismo e vida quotidiana, e um território reconhecido pela UNESCO. A reserva não congela a ilha num postal: acompanha-a. Reconhece que a paisagem que admiramos —as paredes de pedra seca, os prados verdes, os bosques de zambujeiro— é fruto do trabalho humano tanto quanto da natureza, e propõe-se que continue a sê-lo sem se quebrar.
Porque mereceu Menorca o reconhecimento em 1993
A declaração chegou em 1993 e não foi por acaso. A UNESCO valorizou um conjunto pouco habitual de valores naturais e culturais concentrados numa superfície pequena. Por um lado, uma biodiversidade notável para uma ilha mediterrânica: zonas húmidas, sistemas dunares, barrancos, falésias e uma vegetação adaptada ao vento e ao sal. Por outro, um património cultural extraordinário, com milhares de anos de presença humana gravados na pedra.
Esse casamento entre natureza e cultura é a chave. Menorca não era um espaço virgem a proteger do ser humano, mas sim uma paisagem construída com o ser humano ao longo de séculos de equilíbrio. O reconhecimento de 1993 abrangeu toda a parte terrestre da ilha —71 191 hectares nessa altura— e lançou as bases de uma forma de gerir o território que continua em vigor.
A grande ampliação de 2019: quando a reserva chegou ao mar
Durante mais de duas décadas, a reserva foi uma questão de terra firme. Isso mudou a 19 de junho de 2019, quando a UNESCO aprovou a sua ampliação marinha. Foi um salto de escala difícil de exagerar: a superfície passou daqueles 71 191 hectares para 514 485 hectares, multiplicando-se por sete.
A razão é simples e, vista hoje, quase óbvia: numa ilha, o mar não é o limite do território, mas parte essencial dele. A nova delimitação estendeu a proteção até às 12 milhas náuticas mar adentro, somando 445 005 hectares marinhos que representam 85% de toda a reserva. Com esse gesto, Menorca tornou-se a Reserva da Biosfera com maior superfície marinha de todo o Mediterrâneo. A ilha deixou de se proteger apenas a si própria para proteger também as águas que lhe dão sentido.
O coração da reserva: s’Albufera des Grau
Ainda que toda a ilha esteja reconhecida, a proteção não é uniforme. Uma Reserva da Biosfera organiza-se em graus, e o seu núcleo de máxima proteção em Menorca é o Parc Natural de s’Albufera des Grau, no nordeste. Esta grande lagoa costeira —rodeada de sapais, dunas, ilhéus e um litoral de águas serenas— é o batimento natural da ilha e o lugar onde a biodiversidade se concentra com mais força.
A gestão da reserva cabe ao Consell Insular de Menorca, que coordena a sua conservação através da Agència Menorca Reserva de Biosfera (menorcabiosfera.org). É esse organismo que vela por manter o equilíbrio entre uso e proteção que justificou o reconhecimento. Se quiser conhecer de perto este núcleo, dedicámos um guia completo a s’Albufera des Grau, o melhor ponto de partida para entender, no terreno, o que tudo isto significa.
Como se nota a reserva ao percorrer a ilha
O mais revelador é que a condição de Reserva da Biosfera não fica nos documentos: sente-se ao percorrer Menorca. Nota-se na ausência de grandes resorts colados ao mar, numa costa salpicada de enseadas que continuam a parecer selvagens, nos quilómetros de paredes de pedra seca que ordenam o campo e numa densidade de construção muito menor do que a de outras ilhas vizinhas. Essa contenção não é por acaso: é a herança tangível de meio século de olhar para o território de outra forma.
A forma mais honesta de o compreender é a pé, pelo Camí de Cavalls, o caminho histórico que rodeia a ilha inteira e atravessa boa parte do litoral protegido. Ao percorrê-lo entende-se porque a UNESCO pôs aqui o seu selo: porque cada troço é um diálogo entre o humano e o natural. Dedicámos-lhe o seu próprio guia, o Camí de Cavalls, com as suas etapas e conselhos para o percorrer sem pressa.
O que pode (e convém) fazer dentro da reserva
Ser Reserva da Biosfera não significa que a ilha esteja fechada: significa que se desfruta com respeito. Banhar-se nas suas enseadas, percorrer os seus trilhos, observar aves nas zonas húmidas, navegar pela sua costa ou provar o produto das suas quintas são formas de habitar a reserva, não de a violar. A diferença está no como: deixar a enseada como a encontrou, não sair dos caminhos em zonas sensíveis, respeitar a fauna e reduzir a marca do transporte.
O reconhecimento da UNESCO é, no fundo, um convite a um tipo de viagem distinto: mais lento, mais atento, mais consciente de que o luxo de Menorca não se compra, cuida-se. Quem o entende assim não só desfruta mais da ilha, como ajuda a que continue a merecer o selo que a define.
O nosso critério
Se só levar uma ideia de Menorca, que seja esta: a ilha inteira está protegida, e isso explica quase tudo. A calma que procura, a costa que continua a parecer intacta, a ausência de ruído visual não são um acaso nem um golpe de sorte: são a consequência direta de uma decisão tomada em 1993 e reforçada em 2019. Convém não confundir termos —não é um parque nacional, mas sim uma figura da UNESCO, e o parque natural é s’Albufera des Grau, dentro da reserva—, porque entender bem o que é ajuda a viajar melhor. Menorca não se protege a si própria para afastar quem chega, mas sim para que o que encontrar mereça a viagem. Esse é o seu luxo tranquilo: uma ilha que decidiu, há algum tempo, não deixar de se parecer consigo mesma.