Há imagens que resumem uma ilha inteira. Em Menorca, uma delas é a de um cavalo preto azeviche erguido sobre as patas traseiras, no meio de uma rua estreita e apinhada, enquanto centenas de mãos se aproximam para lhe tocar. Não é um número de circo nem uma exibição equestre comum: é o coração das festas menorquinas, e o animal que o protagoniza é o cavalo menorquino, uma raça própria, reconhecida e orgulhosamente insular.

Convém dizê-lo desde já, porque a confusão é habitual: o cavalo menorquino não é o cavalo andaluz nem um tipo de Pura Raça Espanhola. É uma raça autóctone distinta, a Pura Raça Menorquina, com o seu próprio carácter, a sua história e o seu livro genealógico. Partilha raízes no tronco dos cavalos ibéricos, mas seguiu o seu próprio caminho nesta ilha do Mediterrâneo, até se tornar num sinal de identidade tão reconhecível como o queijo ou os muros de pedra seca.

Neste retrato contamos o que torna a raça única, como se identifica, por que a sua capa é sempre preta e qual é o seu papel nas festas, onde deixa de ser um animal de estábulo para se tornar símbolo. Sem estridências, como pede um cavalo que impõe mais pelo seu porte do que pela espetacularidade.

O essencial

  • O que é: uma raça equina autóctone de Menorca, a Pura Raça Menorquina, descendente do tronco ibérico.
  • Capa: sempre preta (azeviche). Um cavalo branco ou castanho não é da raça.
  • Ar: porte barroco, elegante e recolhido, de movimentos elevados.
  • Reconhecimento oficial: a raça foi reconhecida em 1988.
  • Altura: cerca de 1,50-1,55 m (machos por volta de 1,54 m; fêmeas por volta de 1,51 m).
  • Censo: mais de 3 000 exemplares registados, com cerca de 150 nascimentos por ano.

Uma raça própria, não uma variante andaluza

O primeiro equívoco que convém desfazer é o mais espalhado. Muitos visitantes, ao ver um cavalo preto e elegante a fazer cabriolas, associam-no de imediato ao espetáculo equestre andaluz. Mas o cavalo menorquino é uma raça diferenciada, com o seu próprio padrão e o seu próprio registo. Descende do tronco ibérico — a grande família de que também bebem outras raças peninsulares —, mas a sua evolução na ilha, ao longo de gerações, deu-lhe traços próprios.

Essa identidade ficou selada de forma oficial em 1988, ano em que a raça foi reconhecida. O livro genealógico é gerido pela Associació de Criadors i Propietaris de Cavalls de Raça Menorquina, que zela pela pureza da linhagem e regista cada exemplar. Não é um pormenor menor: num mundo de cruzamentos e modas, manter um livro genealógico rigoroso é o que garante que a raça continua a ser o que é.

Como se reconhece: a regra do preto

Se só se lembrar de um dado sobre o cavalo menorquino, que seja este: a sua capa é sempre preta, de um preto azeviche profundo. Não há cavalos menorquinos brancos, cinzentos nem castanhos. A capa preta é um traço definidor da raça, não uma preferência estética. Um cavalo de outra cor, por muito que nasça na ilha, não é um Pura Raça Menorquina.

A esse preto inconfundível soma-se um ar barroco: pescoço arqueado e recolhido, porte elegante, movimentos elevados e uma presença que preenche qualquer espaço. A altura move-se em torno de 1,50-1,55 metros — os machos rondam 1,54 m e as fêmeas, por volta de 1,51 m —, um tamanho médio que combina potência e agilidade. É um cavalo feito para se exibir em distâncias curtas, entre gente, mais do que para galopar em campo aberto: precisamente o que as festas lhe pedem.

Um caixer vestido com casaca montado no seu cavalo menorquino preto durante as festas da ilha.
O caixer e o seu cavalo menorquino: cavaleiro e montada formam uma única figura nas festas. · Foto: Orruza1983 / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

O protagonista das festas

O cavalo menorquino não se entende sem as festas. É o seu cenário natural e o momento em que a ilha inteira o celebra. As mais conhecidas são as de Sant Joan em Ciutadella, no final de junho, mas as restantes vilas de Menorca têm as suas próprias festas ao longo do verão, e em todas o cavalo é o centro absoluto.

O gesto icónico tem nome: o bot. É o momento em que o cavalo se ergue sobre as patas traseiras no meio da multidão, enquanto a gente o rodeia e tenta tocar-lhe durante o jaleo. Longe de se assustarem, os cavalos menorquinos, bem treinados e habituados ao alvoroço, sustentam essa postura com um aprumo surpreendente. É uma estampa que mistura emoção, risco controlado e séculos de tradição, e que explica por que a raça está tão ligada ao carácter festivo da ilha.

Sobre o cavalo vai o caixer, o cavaleiro que faz parte da colla ou conjunto de protagonistas da festa, vestido para a ocasião. Cavalo e cavaleiro atuam como uma única figura, e o treino e o cuidado do animal são uma responsabilidade que muitas famílias menorquinas assumem com orgulho durante todo o ano, não só nas datas assinaladas.

Se quiser entender realmente o que este animal significa para a ilha, o melhor é vivê-lo no seu contexto: contamos-lhe no nosso guia das festas de Sant Joan em Ciutadella, o cenário mais célebre do jaleo.

Uma raça viva, não uma peça de museu

Uma das melhores notícias sobre o cavalo menorquino é que goza de boa saúde como raça. O censo ultrapassa os 3 000 exemplares registados, e todos os anos nascem cerca de 150 poldros. São números que falam de uma raça viva, criada e cuidada por criadores e entusiastas que mantêm a linhagem geração após geração.

Essa vitalidade não é casual. O protagonismo do cavalo nas festas dá-lhe uma função social e cultural que vai muito além do testemunhal: há uma comunidade ampla de criadores, proprietários e cavaleiros que têm um motivo real para continuar a criá-lo e a preservá-lo. O livro genealógico, gerido pela associação de criadores, organiza esse esforço e garante que o preto azeviche e o ar barroco cheguem intactos às próximas gerações.

Para além do jaleo: onde o ver

As festas são o momento alto, mas não a única ocasião de ver cavalos menorquinos. Ao longo do ano há concursos morfológicos, exibições e eventos equestres onde a raça se mostra fora do contexto festivo, com calma e à luz do dia, uma oportunidade excelente para apreciar o porte do animal sem a vertigem do jaleo.

Também fazem parte da paisagem quotidiana da ilha. Não é raro vê-los a pastar em quintas e prados do interior, sobretudo na faixa central de Menorca. E a própria Ciutadella, berço das festas mais célebres, conserva no seu centro histórico o ambiente senhorial que emoldura toda esta tradição; percorremo-lo no nosso passeio por Ciutadella, cidade dos palácios.

O nosso critério

O cavalo menorquino é um desses símbolos que só se entendem por completo quando se veem no seu lugar. Fora da ilha pode parecer só mais um cavalo preto; em Menorca, erguido no meio da multidão durante o jaleo, é a condensação de uma cultura inteira. O nosso conselho é duplo. Se visitar a ilha no verão, procure umas festas — as de Sant Joan ou as de qualquer outra vila — e observe o respeito com que as pessoas tratam o animal: aí está a chave. E se vier fora de época, pergunte por exibições ou concursos, onde poderá admirar a raça com a serenidade que merece. Em ambos os casos verá o mesmo: um animal de capa preta e ar antigo que, sem pedir licença, se tornou na alma de Menorca.