Há uma pergunta que quase ninguém se faz ao passear por Maó e que, no entanto, explica boa parte de Menorca: porque é que a capital da ilha não fica em Ciutadella, a antiga cidade dos reis, mas sim aqui, no outro extremo, debruçada sobre um porto interminável? A resposta tem sotaque britânico e pouco mais de três séculos de antiguidade.

Após o Tratado de Utrecht de 1713, Menorca passou para as mãos da coroa britânica. Não foi uma ocupação uniforme nem contínua — houve interrupções, mudanças de bandeira e avanços e recuos diplomáticos —, mas deixou uma marca tão profunda que ainda hoje se caminha sobre ela. Está no traçado das ruas, no desenho das janelas, no nome de um caminho e até na garrafa que abre muitas esplanadas de verão.

Este guia percorre esse legado sem nostalgia e sem lugares-comuns: o que fizeram exatamente os britânicos na ilha, o que ficou de pé e para onde olhar para o ver com os próprios olhos. Porque a herança britânica de Maó não é um capítulo de manual, mas sim algo quotidiano que a maioria tem diante de si sem o saber.

O essencial

  • A origem: Menorca passou para o controlo britânico após o Tratado de Utrecht (1713).
  • Três períodos britânicos no século XVIII: 1708-1756, 1763-1782 e 1798-1802, com um interregno francês (1756-1763) e outro espanhol pelo meio. Não foi um domínio contínuo.
  • A capital: os britânicos transferiram-na para Maó — não para Ciutadella — e abriram o seu grande porto natural ao comércio.
  • Engenharia: o Camí d’en Kane, a estrada que o governador Richard Kane mandou construir.
  • Arquitetura: os boínders (miradouros envidraçados salientes) e as janelas de guilhotina (sash windows).
  • Es Castell: fundada pelos britânicos como Georgetown, com traçado ortogonal e ar georgiano.

Porque é que a capital é Maó e não Ciutadella

Durante séculos, Ciutadella tinha sido o coração de Menorca: sede da nobreza, da Igreja e do poder tradicional. Mas os britânicos chegaram com uma lógica diferente, marítima e comercial. O que lhes interessava na ilha era a sua posição estratégica no Mediterrâneo ocidental e, sobretudo, o seu porto.

E aqui Maó não tinha rival. O seu porto natural — uma entrada de mar longa, profunda e resguardada — é um dos melhores fundeadouros do Mediterrâneo, capaz de acolher uma frota inteira ao abrigo do vento. Para uma potência naval era um tesouro. Por isso, transferiram a capitalidade para Maó e concentraram os seus esforços em transformar o porto num centro de comércio e de atividade militar.

Essa decisão mudou a ilha para sempre. Maó cresceu, encheu-se de comerciantes, marinheiros e guarnições, e deslocou o centro de gravidade de Menorca para leste, onde continua a estar hoje. Se quiser compreender esse porto que decidiu tudo, vale a pena dedicar-lhe um passeio inteiro: contamo-lo no nosso guia do porto de Maó.

O que foi o Camí d’en Kane

Se há um nome próprio nesta história, é o do governador Richard Kane, a figura britânica mais recordada na ilha. A ele se atribui uma visão mais ambiciosa do que a mera ocupação militar: melhorar a vida e a economia de Menorca.

O seu legado mais tangível é o Camí d’en Kane, a estrada que mandou construir para unir Maó ao interior e, na sua origem, à zona de Ciutadella. Foi durante muito tempo a principal via de comunicação da ilha, uma infraestrutura que facilitou o transporte de mercadorias e o desenvolvimento agrícola num território até então mal comunicado por terra.

Hoje, parte daquele traçado sobrevive como um caminho tranquilo entre Maó e Es Mercadal, que atravessa campos, muros de pedra seca e alguma quinta, oferecendo uma das panorâmicas mais serenas do interior menorquino. Percorrê-lo — a pé, de bicicleta ou de carro — é uma forma silenciosa de pisar literalmente a herança britânica.

Es Castell: uma aldeia de planta britânica

À entrada do porto de Maó, os britânicos fundaram uma povoação nova junto à sua principal fortaleza: batizaram-na Georgetown, em honra do rei, e hoje chama-se Es Castell. É, provavelmente, o canto mais british de Menorca.

Basta caminhar pela sua praça de armas para notar a diferença: uma explanada retangular, ordenada, presidida por edifícios de ar militar, com ruas que se cruzam em ângulo reto. Perante a desordem orgânica das aldeias mediterrânicas medievais, Es Castell responde a um traçado ortogonal, pensado e desenhado à partida, com essa sobriedade georgiana que denuncia a sua origem. Descendo em direção ao mar, a enseada de Cales Fonts — hoje cheia de esplanadas — conserva esse mesmo ar de porto de guarnição reconvertido em lugar de passeio; contamo-lo no guia de Es Castell e Cales Fonts.

O porto de Cales Fonts, em Es Castell, a antiga Georgetown fundada pelos britânicos junto ao porto de Maó.
Es Castell, a Georgetown britânica: a sua doca de Cales Fonts é hoje a imagem mais conhecida da aldeia. · Foto: Adobe Stock

Boínders e janelas de guilhotina: a marca nas fachadas

A herança britânica mais quotidiana não está nos monumentos, mas sim nas casas. Erga o olhar em Maó e verá dois detalhes que não encontrará em quase mais lado nenhum de Espanha.

O primeiro são os boínders: miradouros envidraçados que sobressaem da fachada, normalmente no primeiro andar, pensados para captar a luz e olhar para a rua ao abrigo do vento. A própria palavra conta a sua origem: “boínder” é a catalanização do inglês bow window, a janela saliente das casas britânicas. Poucas provas tão elegantes de como uma cultura deixa o seu sotaque até na língua de um lugar.

O segundo são as janelas de guilhotina — as sash windows inglesas —, que se abrem deslizando uma folha sobre a outra de baixo para cima, em vez de rodarem sobre dobradiças. Era o modelo habitual na arquitetura britânica da época, e em Maó criou raízes até se tornar parte da paisagem urbana. Hoje continuam a ser um traço distintivo das casas do centro histórico.

Foram “os ingleses” durante todo o século XVIII?

Convém matizar um lugar-comum, porque a história real é mais rica do que o cliché. Menorca não foi britânica de forma contínua durante todo o século. Houve três períodos de domínio britânico — 1708-1756, 1763-1782 e 1798-1802 — separados por um interregno francês (1756-1763) e por um período de soberania espanhola pelo meio.

Essa alternância de bandeiras explica por que motivo a ilha acumulou influências diversas em poucas décadas, com o britânico como substrato dominante mas não único. Falar sem mais de “os ingleses durante todo o século XVIII” é simplificar uma história de idas e vindas que, precisamente, torna Menorca tão singular.

Entre tudo o que deixou aquela presença naval britânica está também o gin. O gosto pela genebra das guarnições criou raízes na ilha e deu origem ao gin de Mahón, que com o tempo ganhou a sua própria identidade menorquina; dedicamos-lhe um artigo à parte, o gin de Menorca.

Como a ver hoje, sem pressa

Não é preciso um itinerário académico para sentir esta herança. Basta caminhar por Maó atento aos detalhes: as janelas de guilhotina, os boínders, a escala do porto. Depois, atravessar até Es Castell e deixar-se levar pela geometria da sua praça de armas. E, se houver tempo, percorrer um troço do Camí d’en Kane para compreender que o britânico não ficou na cidade, mas também ordenou o campo.

É uma herança discreta, que não se impõe nem se exibe, mas que está em toda a parte assim que se aprende a reconhecê-la. E esse é, talvez, o seu maior encanto: faz parte da vida diária da ilha sem pedir licença nem protagonismo.

O nosso critério

A herança britânica de Maó não se visita, reconhece-se. Não há um grande monumento que resuma tudo, mas sim um gotejar de pistas — uma palavra como boínder, uma janela que desliza, uma praça demasiado ordenada para ser mediterrânica, um caminho com nome estrangeiro — que recompensam quem olha devagar. O nosso conselho é esse: reserve uma manhã sem plano, deixe o guia no bolso e aprenda a ler a cidade. Quando começar a distinguir o britânico do menorquino, Maó deixará de ser uma capital qualquer e transformar-se-á no que de facto é: o resultado, ainda visível, de um século extraordinário.