A charcutaria menorquina não se entende sem a matança do porco, essa tradição de inverno que durante séculos encheu a despensa das casas de campo. Dela nascem enchidos de caráter forte e elaboração paciente, pensados para barrar no pão, fritar com ovos ou cozer devagar. Não são produtos de montra: são comida a sério, das que contam a história da ilha em cada dentada.

Este guia explica o que é cada enchido menorquino, em que se diferencia do maiorquino — uma nuance importante — e onde comprá-lo bem.

O essencial

  • Os protagonistas: sobrassada (de barrar, com colorau), carn-i-xulla, cuixot (ou camot) e os botifarrons.
  • Uma nuance quanto aos selos: a IGP “Sobrasada de Mallorca” é de Maiorca, não de Menorca. Em Menorca a sobrassada é feita de forma artesanal, mas não leva essa indicação.
  • Como se comem: a sobrassada, barrada no pão (com mel funciona às mil maravilhas); o cuixot, em fatias; muitos, também fritos ou em guisado.
  • Onde comprá-los: talhos da ilha, mercados de produto local e lojas gourmet de quinta.

O que é cada um

  • Sobrassada. O enchido mais famoso das Baleares: carne e gordura de porco picadas, colorau, sal e especiarias, enchidas e curadas até ficarem de barrar. De cor vermelha intensa e sabor profundo. É um produto partilhado com Maiorca; em Menorca é feito de forma artesanal em muitas casas e talhos.
  • Carn-i-xulla. Um dos enchidos mais antigos e característicos de Menorca. O nome — “carne e toucinho” — já diz tudo: um enchido curado que aproveita ambas as partes do porco.
  • Cuixot (ou camot). Um enchido cozido, gordo e escuro, com carne picada, especiarias e, muitas vezes, sangue, tradicionalmente enchido numa perna do porco. É o primo menorquino do camaiot maiorquino. Em Ciutadella chama-se-lhe cuixot.
  • Botifarrons. Enchidos cozidos: o botifarró negre leva sangue e especiarias; o botifarró blanc, partes mais nobres e um sabor mais fino.

Menorca e Maiorca: a diferença que convém saber

É fácil confundir a charcutaria das duas ilhas, porque partilham raízes e algum produto. A chave para não errar é esta: a sobrassada com Indicação Geográfica Protegida é a “Sobrasada de Mallorca”, cuja zona protegida é a ilha vizinha. A sobrassada que comprar em Menorca pode ser excelente e artesanal, mas não é “Sobrasada de Mallorca IGP” — e ainda bem que assim é.

Onde Menorca marca o seu próprio terreno é em peças como o cuixot e a carn-i-xulla, sinais de identidade da charcutaria local. Se procura o mais menorquino, pergunte por elas.

Como desfrutá-los

A forma mais ilhéu é a mais simples: pão com sobrassada, por vezes com um fio de mel da ilha por cima, que equilibra o colorau. Sobre pão torrado, com um pedaço de queijo Mahón-Menorca, é uma dessas dentadas que resumem toda uma cultura. O cuixot e os botifarrons servem-se em fatias ou entram em guisados e arrozes de inverno. E quase tudo combina com um tinto jovem da ilha ou uma cerveja fresca.

Sobrassada inteira e dois pães barrados, com uma tigela de colorau, sobre madeira.
A sobrassada: pão, colorau e pouca pressa. · Foto: Adobe Stock

Onde comprá-los

O melhor é ir aos talhos de aldeia, onde ainda se faz de forma artesanal e o aconselham consoante o que procura. Os mercados de produto local — como o Mercat des Claustre, em Maó — são outra boa opção, e algumas lojas de quinta (por exemplo, a do Hort de Sant Patrici, em Ferreries) vendem enchidos junto ao queijo e ao mel. Pergunte sempre se é artesanal e de fabrico local.

Para a viagem, tenha em conta que a sobrassada curada aguenta bem, mas os produtos cozidos como o cuixot são mais perecíveis: compre-os no fim e consuma-os depressa.

O nosso critério

Os enchidos de Menorca são comida de casa, não de recordação turística, e por isso emocionam. Leve uma sobrassada artesanal e, se quiser ir mais além, um pedaço de cuixot: poucos produtos contam melhor o inverno da ilha, esse que o visitante de agosto raramente vê. Um conselho final: compre menos quantidade mas melhor, pergunte quem o fez e reserve um bom pão para a primeira dentada. O resto é o colorau que trata.