Em 2011 a UNESCO inscreveu a Serra de Tramuntana na Lista do Património Mundial. Não como paisagem natural, mas como paisagem cultural: a categoria reservada aos territórios que são obra conjunta da natureza e do ser humano. A diferença importa, e explica o que se vê ao percorrê-la.
O que foi inscrito
O que está protegido não são os cumes. É o que séculos de agricultura fizeram de uma montanha sem um palmo plano nem água fácil: socalcos de pedra seca que transformam uma encosta em terra de cultivo, e uma rede articulada de gestão da água — canais, cisternas, moinhos — construída em torno de unidades agrícolas de origem feudal.
A inscrição foi aprovada pelos critérios (ii), (iv) e (v) da Convenção: a troca de influências na construção da paisagem, o exemplo excecional de um conjunto tecnológico e agrícola, e o povoamento tradicional representativo de uma cultura que se tornou vulnerável.
Onde se vê melhor
Em Banyalbufar, um anfiteatro de socalcos a descer da montanha para o mar, erguidos para cultivar vinha e horta onde não havia espaço. Em Estellencs, com os seus socalcos de oliveiras sob o Galatzó. Em Fornalutx e no vale de Sóller, onde a laranjeira ocupa cada patamar ganho ao declive.
A técnica que sustenta tudo isso — a pedra assente sem argamassa, segura pelo peso e pela forma — continua viva e é um ofício, não cenário. Um socalco mal reparado cai; um bem feito aguenta séculos.
Como olhar para isto
É uma paisagem que se entende devagar e a pé. Qualquer caminho entre aldeias da Serra atravessa dezenas de muros, e nenhum está ali por acaso: cada um segura um pedaço de terra que alguém decidiu que valia a pena segurar.
Por isso uma visita à Serra não é apenas ver a vista de um miradouro. É reconhecer, nos muros que seguram a estrada e nos socalcos que descem para a água, o trabalho de gerações que tornaram habitável uma montanha.